Um mês de “bestificação” brasileira.

 

Um pouco mais sobre o caso Isabela. A pouco mais de um mês, ocorreu em um edifício não muito diferente do seu e, em uma família não muito diferente de alguma que você possa conhecer – um assassinato. Segundo uma pesquisa do CNT/SENSUS, o caso Isabela é de conhecimento de 98,2% dos brasileiros, ou seja, um episódio que se tornou redundante descrevê-lo, uma vez que, praticamente o país inteiro já ouviu falar.

Na revelia das informações, a maioria das notícias surgiram com a promessa de serem inéditas e reveladoras, que de alguma forma, a “verdade”, estava para ser desvendada imediatamente através do que iria ser dito. Está perspectiva sensacionalista, que nada mais é, que uma apelação para fisgar a atenção, resultou em um Big Brother 9. É como se nós estivéssemos assistindo ao Jornal Nacional e a novela Duas Caras ao mesmo tempo, por exemplo.

As opiniões em geral, são desinteressadas pelo espaço público, que poderiam render alguma construção positiva, mas desandaram ao fascínio há cerca das tensões privadas: “O que é que se passa no apartamento do lado?” Algo muito semelhante com o que acontece em relação ao Cartão Cooperativo: “O que é que ele comprou no FreeShop?” Dessa forma, o que tem seduzido os brasileiros, nestas duas situações atuais, resume-se a uma curiosidade novelística e de busca por verdades absolutas- o último capítulo.

No caso Isabela, esta curiosidade pelo o que diz respeito à vida alheia, anseia algum tipo de satisfação, de forma caricata do que se tem dado importância. Apanhados pela cultura do modelo reality show, o “Vamos dar aquela espiadinha!” se tornou a norma dos posicionamentos, sendo difícil um movimento lateral, de sentido crítico e desligado do espetáculo. Ludibriando nossos dias, já se passaram mais de um mês deste exemplo da “bestificação” brasileira.

Falando nisso, alguém ainda lembra do caso João Hélio? Aquele menino morto arrastado.

*Este texto foi publicado no Jornal Diário de Santa Maria, como opinião de leitor, no dia 16 de maio de 2008. O título foi alterado pela edição do jornal para “O caso Isabela”.

 

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